A aprendizagem depende da querência
Quanto você quer aprender algo novo?
O processo de aprendizagem está diretamente ligado às
emoções. Se o sentir for prazeroso e afetuoso, o aprender torna-se possível. Sem significado, sem emoção, sem desejo, sem curiosidade, sem afetividade, não há aprendizado, mas pode haver "decoreba" inútil para passar em algum teste igualmente inútil.
Essa semana recebi um áudio de meu querido amigo
Osni, pai de uma linda menininha de 9 anos.
Ontem, eis que
chega minha filha da escola toda empolgada e falante... não dava nem para
entender direito.
O assunto era
que amanhã a professora iria deixar os alunos livres para criar atividades.
Minha filha montou
um grupo com umas amigas e juntas iriam criar um salão de beleza.
Você precisa
ver essa menina desde as 4h30 da tarde até às 9h da noite se dedicando a este
projeto.
Desenvolveu um
descritivo, criando até o nome do salão.
Ela bolou o
marketing, com panfleto e promoções. Teria um título: “venham conhecer o salão”.
E as duas promoções seriam: “Se você fizer o pé e a mão ganha um spinner (um
brinquedinho)”; “Só hoje - promoção de R$ 10,00 a mão”.
Ela
desenvolveu a logística, decidindo onde (dentro da escola) o salão seria
montado e o horário de atendimento. Quem seria responsável pelo caixa e pelas
atividades do salão.
Depois ela criou o dinheirinho, que seria trocado pelos
serviços.
Foi demais
vê-la empolgada trabalhando em diferentes disciplinas ao mesmo tempo e com enorme
prazer.
Isso é
Aprendizagem por Projetos. Ela desenvolveu várias competências "brincando".
Onde permeia a querência na Aprendizagem por
Projetos? No desejo e curiosidade que regem a escolha do tema, na autonomia
do planejamento, na percepção de relevância das competências que serão aprendidas
e aplicadas.
[...] na
mudança de paradigmas, quando o professor passa a ser um gestor de portfólio e
os alunos, gestores de projetos, com possibilidade de potencializar a autonomia
do aluno na construção de conhecimentos complexos, através do desenvolvimento
de projetos interdisciplinares, mas principalmente os transdisciplinares, que
dialogam com a nova pedagogia e privilegiam práticas de conteúdo
desfragmentado, através da Aprendizagem por Projetos.
A escolha do
tema está relacionada a uma vivência prática com Aprendizagem por Projetos -
uma Metodologia Ativa da Aprendizagem - que desenvolve a capacidade criadora,
ampliando o potencial pensante e a autoconfiança para processos de desafios e
resolução de problemas.¹
Ahhh... essa autoconfiança... Foi tão massacrada nos
anos de escola.
Qual a porcentagem de alunos do ensino médio e
universitário que se percebem, ou já se perceberam burros?
Quantos têm medo dos processos educacionais? (exemplo:
prova)
Quantos desenvolveram medo dos professores?
Quantos sentem sua autoestima fragilizada por conta
da inadequação na padronização escolar?
Quantos não se veem como alguém capaz?
Quantos cultivam um fracasso que lhe foi imposto?
O que tem sido feito para reverter esse processo degenerativo?
Daniel Pennac relaciona o fracasso educacional
ao medo, e associa este medo a solidão. Pedagogicamente, como se acaba com a
solidão? Criando projetos:
É possível transformar esses jovens desinteressados e passivos, em alunos ativos e
protagonistas de sua aprendizagem?
A Aprendizagem
por Projetos parte de um problema real a ser solucionado. O professor não mais
oferece a resposta pronta, mas cria desafios que provoquem a curiosidade e
interesse do aluno. Esse processo modifica a percepção do aluno sobre seu papel
na aprendizagem e em seu meio social. A conexão teoria/prática é adquirida
através de um processo de gestão de projeto, que abrange a pesquisa,
investigação, análise do problema, planejamento, desenvolvimento, experimentação
e aplicação do projeto, proporcionando uma utilidade às teorias e agregando
valor aos conceitos. Além dos ganhos científicos e acadêmicos, há um ganho em
competências e habilidades, proporcionando uma aproximação do processo de
aprendizagem, com uma vivência de um ambiente profissional. Estimula a
criatividade, o senso crítico e o pensar complexo.¹
Para demonstrar a aplicabilidade da Aprendizagem por Projetos, destaco um trecho da matéria da BBC News Brasil, que aborda as transformações na educação na Finlândia:
A Finlândia é conhecida por ter adaptado suas salas de aula para o
chamado "ensino baseado em projetos", em que os alunos - em vez de
terem o conhecimento dividido por áreas estáticas, como matemática, línguas e
geografia - aprendem com base em grandes projetos multidisciplinares, com
grande autonomia.
Para Mäkihonko, isso exige professores que aprendam, em sua formação, a
serem flexíveis e capazes de implementar "atividades inteligentes em
situações novas".
Isso reflete uma questão importante da reforma educacional finlandesa:
colocar os alunos como agentes ativos de seu próprio aprendizado.
Um relatório de 2010 da OCDE (Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico) sobre a educação finlandesa aponta que "as salas
de aula são centradas no aluno".
"O objetivo é aumentar a curiosidade dos estudantes e sua motivação
para aprender, além de promover sua proatividade, autodirecionamento e
criatividade, oferecendo-lhes problemas e desafios interessantes", diz o
texto.
Atuei por muitos anos com Aprendizagem por Projetos e até
hoje não encontrei nenhuma forma mais eficiente para devolver a autoconfiança
dos alunos do que estimulá-los a produzir bons projetos. Quando estes alunos contemplam suas criações e os resultados alcançados, eles se percebem capazes. O orgulho por suas “crias”, desperta a autoconfiança.
Eu adoraria ter um pó de pirlimpimpim para aumentar a
autoconfiança de todos os meus alunos sem esforço, dedicação, persistência ou fadiga, mas não tenho... Então vamos produzir mais bons projetos complexos, de interesse dos alunos e que solucionem problemas reais!
“O amor faz com que sejamos mais inteligentes”
[Daniel Pennac]
Textos relacionados: A bizarra resistência dos alunos e Ela nasceu para voar, mas acredita que é incapaz
Fonte da ilustração: https://www.dqsblog.com/2016/01/ilustraciones-del-cuentos-de-hadas.html
1 - CARVALHO, Ana Cristina N. de. APRENDIZAGEM
POR PROJETOS: uma alternativa à desfragmentação da educação universitária. Trabalho
de Conclusão de Curso – MBA em Gestão de Projetos - Centro Universitário
Estácio de São Paulo, 2018
Deixe seu comentário ou dúvidas. ⬇

Comentários
Postar um comentário